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A REALIDADE DO EXECUTIVO NEGRO

Preconceito racial é uma realidade nas empresas.

Eles estão acostumados a serem quase únicos. Nas universidades, nos cursos de mestrado, pós-graduação, MBAS. Quando chegam ao mercado de trabalho, com currículos invejáveis, notas acima da média, falando vários idiomas, continuam sendo minoria. Isso porque, fazem parte de uma pequena elite negra brasileira que consegue romper as barreiras sociais e do mundo corporativo, para ocupar cargos executivos nas empresas.

O Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), divulgou uma pesquisa que confirma esta realidade brasileira. Segundo ela, apenas 4,5% dos homens negros empregados na região metropolitana de São Paulo ocupam, atualmente, posições de decisão nas companhias. E só 9,6% dos executivos em cargos de direção, gerência e planejamento são negros. Para as mulheres negras, a situação é ainda mais difícil. Somente 4,3% delas ocupam esses cargos. Vale lembrar que a população negra, segundo o IBGE, corresponde a 45,3% dos brasileiros.

Quem consegue chegar lá, traz na bagagem um histórico de conquistas e de muito empenho na área do conhecimento. "A cultura e o estudo é a nossa arma no longo prazo", diz o executivo André Oliveira, 43 anos, dono da empresa Mercúrio de produções culturais. Ele formou-se e fez mestrado em engenharia no Instituto Coppead, da UFRJ, um dos mais conceituados do país. Apesar de estar entre os melhores alunos da classe, foi o último da turma a encontrar emprego. Ao longo da carreira, trabalhou em diversas multinacionais. Numa delas, foi assessor da presidência. "Sentia que meu prestígio e competência eram questionados e invejados pelos outros executivos", diz. "Um dia, pararam uma reunião e perguntaram se eu tinha sido adotado por ingleses. Como eu podia ser negro, brasileiro e ter inglês fluente?". Os próprios headhunters admitem que não é fácil indicar um executivo negro. "É inegável que existe racismo, mas não por causa das políticas corporativas", diz Dolph Johnson da TMP Worldwide. "Ele aparece de forma sutil no preconceito de algumas pessoas". Em 26 anos como "caça talentos", indicou 500 pessoas, e apenas sete negros. Victoria Bloch, da DBM, que faz a recolocação de executivos, diz que em 13 anos atendeu 3 mil clientes, quatro negros.

Driblando as barreira sociais e corporativas.

O atual diretor de vendas corporativas da Nortel, José Marcos Oliveira, 38 anos, teve que dar duro no início da carreira ao decidir estudar no Humber College, no Canadá. Para pagar uma mensalidade de quase U$ 1,5 mil, trabalhou como pedreiro e carpinteiro. Isso depois de ter estudado engenharia química e filosofia. Ao voltar para o Brasil, penou para encontrar um emprego à altura de sua formação. Acabou topando assumir a gerência de produto de uma empresa de comunicação de dados americana para ganhar apenas US$ 750 mensais. Bem menos do que tinha investido do próprio bolso para estudar.

Persistente, não desanimou. Em 1997, entrou para a Nortel, onde hoje ocupa a diretoria responsável pela área de vendas, marketing e engenharia. Ele está entre os 5% de executivos negros da empresa. Agora, numa fase mais estável da carreira, acredita que o fato de ser negro já não faz tanta diferença. O começo é bem mais difícil. "Existe uma fase em que parece que todo mundo está torcendo para você falhar", diz. "Quanto mais visibilidade você ganha no mercado, mais as pessoas duvidam da sua capacidade, porque você é negro". Especialmente quando se está numa posição de comando, uma equipe pode sabotar o chefe negro não contribuindo, por exemplo, para se atingir metas. "São barreiras sutis que você precisa aprender a superar", diz Oliveira.

O consultor de RH da IBM, José Carlos do Nascimento, 31 anos, conta que quando entrou para a Lotus, depois de vencer 14 candidatos brancos, era o segundo negro na companhia. Com um currículo exemplar, que incluía o curso de sociologia pela PUC e pós-graduação em RH pelo Mackenzie, logo foi promovido de analista para gerente. Na mesma época, o negro Al Zollar assumiu a presidência mundial da Lotus. Então, teve que ouvir comentários, que considerou preconceituosos, do tipo: "olha aí agora você tem chance de chegar ao topo!".

Atualmente, responsável pela área de consultoria de RH da IBM, que incorporou a Lotus, ele está trabalhando num projeto de diversidade, que pretende dar voz às reivindicações dos negros da empresa, que são 60, entre os 4,4 mil empregados no Brasil. Se a presença negra é pequena, Oliveira diz que um dos motivos é a falta de candidatos, especialmente nas posições de gerência para cima. A dificuldade de ascensão profissional está vinculada não só a preconceitos, mas também à questão social. Segundo uma pesquisa do Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) realizada na região metropolitana do estado de São Paulo, apenas 2,4% dos homens negros empregados e 4,7% das mulheres têm curso superior completo.

Muitas vezes, entretanto, o empenho pessoal não é suficiente para alavancar a carreira de uma profissional negra. Liliane Pereira dos Santos, 36 anos, gerente comercial do Yahoo! Brasil, diz que o preconceito é velado, mas existe. "É mentira quem diz que nunca sentiu isso", diz. "O melhor é encará-lo como desafio". Ela lembra que em certo período decidiu deixar o emprego porque discordava de uma política adotada pela empresa na qual trabalhava. Para recolocar-se procurou um serviço de "outpalcement". Durante seis meses, fez pelo menos duas entrevistas de emprego por semana até conseguir um trabalho. "Acho que essa demora também aconteceu pelo fato de ser negra".
"Ser negro é algo que você aprende desde pequeno", diz Roger-Marcel Sidokpohou, 53 anos, diretor da divisão de RH e Organização da AGF Brasil Seguros e vice-presidente da Câmara de Comércio França-Brasil. Ele nasceu em Burkina-Faso, perto da Costa do Marfim. Roger, como é conhecido, morou 23 anos na África e outros 23 na França, antes de chegar ao Brasil em 1994. Na Sorbonne, graduou-se em direito, na Universidade de Dijon, fez pós-graduação e MBA, o doutorado foi no "Centre des Hautes Études d'Assurances" de Paris.

Ele iniciou a carreira no grupo AXA na França e entrou para o AGF em 1975. Roger acredita que o mais importante para enfrentar o preconceito é a forma como você encara as coisas. "A hipocrisia é a pior face do racismo", diz. "O que as organizações esperam é que você agregue sua competência e é isso que você deve ter em mente". Tendo conhecido bem as três culturas: africana, francesa e brasileira, acabou abrindo sua mente e esquecendo a cor da sua pele. Roger acredita que hoje, com a interdependência entre as nações gerada pela globalização econômica, a palavra de ordem é compartilhar, ter solidariedade. "Isso certamente está acima de qualquer preconceito racial". Os "caça talentos" são testemunhas da dificuldade.

"As pessoas se assustavam quando ele chegava para as entrevistas", lembra Victoria Bloch, consultora da DBM, empresa de recolocação de executivos, referindo-se a um candidato negro, altamente qualificado da área técnica. "Ele era um dos melhores do país em sua especialidade", conta.
Os "headhunters" mal conseguem lembrar de algum presidente de empresa negro no Brasil. "Já tive que lutar para convencer empresas a contratarem um negro, porque sabia que ele era a pessoa certa", diz Dolph Johnson, da TMP Worldwide. Carlos Diz, sóciodiretor da SpencerStuart, especializado no recrutamento para as áreas de tecnologia e telecomunicações, diz que em seis anos de carreira conversou com cerca de 1,5 mil candidatos. Destes, apenas um era negro. Ele acredita que o preconceito não chega a ser um problema, o que existe é uma falta de qualificação. "Isso é muito mais dramático". Marcelo Mariaca, da Mariaca & Associates, diz que a naturalidade para a inserção do negro no mundo dos negócios acontece na medida em que ele consegue quebrar as barreiras sociais. "O que temos no histórico do negro com sucesso profissional é que ele já nasceu numa família com capacidade de oferecer um bom estudo", diz. "Depois vem à oportunidade, a sorte e o empenho".

O preconceito também está na questão salarial.

Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), concluiu que o homem negro sofre principalmente pela menor qualificação, que representa 73,5% da diferença salarial média. O preconceito "puro" representa 17,9%, mas aumenta na medida que acontece a ascensão salarial. O fim desse preconceito representaria um aumento salarial de 5% a 7% para os mais pobres e de 20% para os negros mais ricos. Já as mulheres negras acumulam perdas relacionadas tanto ao fator qualificação, comum aos negros, quanto ao preconceito "puro" (45% do abatimento), sentido pelas mulheres brancas.

Realizado em 2000, por Sergei Suarez Dillon Soares, da diretoria de estudos sociais do instituto, o trabalho foi baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), que apontou que, em 1998, a média salarial dos homens brancos era de R$ 726,89 enquanto a dos negros, R$ 337,13. As mulheres negras recebiam ainda menos: R$ 289,22.
Considerando que esse abatimento poderia ser causado por dois fatores extras (qualificação e inserção em diferentes mercados de trabalho), Soares estimou o peso da diferença devido ao preconceito. Esse estudo sobre os motivos que levam às discriminações salariais de homens e mulheres negras pode ser conferido na íntegra, dentro do site do Ipea www.ipea.gov.br .
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